1448 - MARCELO BRANDÃO

2 de dezembro de 2021


1448

 

Escrevo em silêncio

sobre toda essa

barulheira que há,

dentro e fora de mim.

Escrevo simplesmente.

Escrevo sem temer,

sem me queixar...

 

O silêncio pergunta

e me responde.

Cabe em tudo.

No que se explica

e naquilo que não

se pode explicar!

 

O silêncio aprisiona

enquanto liberta.

É o caminho percorrido

entre a voz e a presença.

O silêncio nos cura

e nos ensina sem falar!

 

O silêncio precisa

ser compreendido

para além das palavras.

Ele é um segredo!

Portanto, não pode

e não deve ser dito.

Segredos só existem

quando em silêncio.

Não é coisa de se contar.

 

Em silêncio percebi

que o nosso amor

ajuda todos aqueles

que sofrem...em silêncio!

Ele conhece todos

os nossos gestos,

pensamentos e atos.

Nele, tudo está!

 

Marcelo Brandão

 

 

 

PART IDAS - Raquel Leal

1 de dezembro de 2021


 

Part idas

Não vi a saída
Do último ônibus
Que tu pegasse
Na estrada

Também perdi
A partilha do pão
Na celebração
De domingo

É que comigo
As partidas soam
Como fome
Consomem às vezes
Os pedaço sãos
E eu preciso de lucidez

Comungo segunda
Rezo na terça
Vó benze na quarta
Meu quarto se ilumina

Então não veja as idas
Prefiro ficar com as voltas

Raquel Leal

“Imagem representativa de Maria Conga utilizada na logo do enredo da Acadêmicos da Rocinha em 2020.”

Sonho de Ninfa - MARINA ALEXIOU

26 de novembro de 2021




 

Sonho de Ninfa

 

Ela habita um tempo em que a grandeza foi uma realidade física

Noutros, encerrada está na sua imagem.

Por onde andará a sua alma?

 

O seu braço é forte ainda para amparar o cântaro das mudanças.

Seu olhar navega em pensamentos amorosos por aquele que se foi.

 

O sol reflete em sua sedutora silhueta,

aquecendo o perfume que inebria os que passam

arriscando um olhar...

 

Que passado é esse tão distante que a conheceu

e ainda a acompanha no seu exercício contemplativo?

 

No seu jardim de pedra ela se deleita em sua beleza primaveril

esperando, quem sabe, ser arrebatada no vento

em direção a novas tardes de amor,

como aquelas em que ainda não estava só.

 

Àquele leito natural e macio dos amantes.

 

O seu panteão hoje é um lugar de recordações,

lembranças e honores solitários entre nuvens

que passam e a observam, eternamente...

Desabitada de saberes e paixões.

 

Mesmo assim, ela espera docemente, em sua languidez de deusa,

Sabedora de manipular os dons dos prazeres de Eros

Com a volúpia e a saciedade próprios da sua estirpe.