SACERDOTISA LUNAR - Marina Alexiou

22 de outubro de 2021

              

                       Gustave Moreau


Sacerdotisa Lunar

 

Ela aponta para nossos anelos na imensa tela

Colorida pelas tintas da eternidade

Profundamente azuis...

Iluminadas por um fogo terrenal que arde a seus pés,

As cinzas são resgatadas por aqueles que descansam em seus braços.

E, portanto, recebem o olhar atento em deleites

Formadores de uma realidade magicamente encantada...

Aos que atendem ao seu chamado,

A rosa da vida é desfolhada lentamente,

Em pétalas que farão parte do bordado

Das vestes celestiais desse vasto ser

Personificado em infinitas imagens oníricas.

Perturbadoras. Purificadoras.

O caminho de ascensão aos segredos

Dessa dimensão a qual ela preside

Passará pelo poder desse semblante,

Cego aos arrependimentos e surdo para os lamentos...

Inexprimível rosto este, de cândido brilho e de expressão sonhadora

Em seu duplo aspecto de inconsciência lunar.

Que ouve em silêncio o mover dos deuses nos céus

E distribui refúgios em seu palácio resplandecente de ilusões.

Sobrevoando entre suspiros e anseios

Daqueles que tornam-se seus convidados,

Reparte, entre eles, as dádivas...

 

 

 

 

 

 

POEMA- RAQUEL LEAL

20 de outubro de 2021


 

 

Coluna: Meu quarto na quarta

 

Raquel Leal é atuante no meio poético desde 2012, embora escreva desde sempre, participou de vários saraus, entre eles o Solidões Coletivas, saraus no Grêmio Barramanse de Letras, saraus organizados pelo Circunlókios em Cafés voltaredondenses, também participa de eventos culturais promovidos pela sociedade civil e pública. É membro fundadora da Academia de Artes, Ciências e Letras do Brasil, e integrante da comissão organizadora do evento acadêmico Letra por Letra realizado para alunos e professores do curso de Letras, no Polo Cederj em Piraí. Finalista do Prêmio Olho Vivo de melhor poeta em 2019, e novamente em 2020. A arte à interessa em todas as suas formas de expressão, e a poesia à liberta. Professora de Língua Portuguesa e Literaturas é formada pela UFF, com cursos de extensão em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pelo IFRJ, Literatura Musical pela UFRRJ, entre outros.  Conselheira de Cultura na Cadeira de Literatura da cidade de Volta Redonda, tem por amor a arte e a sensibilidade de criar.


POEMA

O tempo é sabão molhado


Houve um tempo em que eu estava apaixonada
E minha luz brilhava entre toda a escuridão

Mas meu navio chegou, levando-me do vão
Que faziam suas mãos

Houve um tempo de lutas inglórias, lágrimas e medo
Havia dor e escorria solidão
Mas nada me roubava os pensamentos destinados a ti

Essas eram as horas em que eu novamente brilhava

Há de volta o meu tempo de estar outra vez apaixonada
E para ti vão minhas palavras escritas na pedra
Para que nenhum vento as transformem em nada
E o sal do mar não as desidratem e nem a solidão as ceguem

Até que um dia eu as encontre novamente e sorria, poesia

A ti sempre retorno, entregando meus interstícios.

Raquel Leal

Fotografia de Parati







TRILHAS - MARINA ALEXIOU

16 de outubro de 2021

JOAQUIN SOROLLA
 

Trilhas

A chuva escorre num cântico

Ondas batem placidamente em desenfreado comboio.

Enquanto pedras

Vão sendo limadas num turbilhão

E se transformam nas folhas que caem,

Amarelecidas pelos outonos.

Em alamedas entristecidas,

Para aqueles que nunca as saberão...

O vento na tempestade chama

A paisagem de intensas côres.

Surgirá numa primavera que espera

Pelo frescor nos pés,

A pisar o liso caminho desgastado em suas arestas

Dos tempos de ardor...

O coração adivinha que os tempos chegaram

Para as palavras,

Que se transformarão em preces

Em máxima quietude...

Ele aguarda, pois

Não há mais pressa em se adivinhar o futuro

Porque sabe que isso nunca existiu,

Para além dos devaneios comuns.

O perdão das estações se faz presente

E, assim, mescla a sua mensagem

Com os sonhos sonhados em vigília

Por longo tempo...

A trilha surge

Em meio a novos quadros, já nítidos.

E o viajante segue... uma vez mais,

Pela última vez.

Agora feliz...